terça-feira, janeiro 31

A voz

Vinha a conduzir, a ouvir música, quando o ouvi. Que chatice a música era mesmo gira. E a voz dizia qualquer coisa deste género:
- "Onde está o teu irmão?", perguntou Deus a Caim depois dele ter assassinado Abel.
- "Que tenho eu a ver com isso? Por acaso sou guarda dele?"
E a voz continua, alertando para as vezes em que damos esta resposta quando nos questionam acerca dos que nos rodeiam, dos mais pobres, dos sem-abrigo...

A voz falou na Rádio Renascença e ressoou na minha consciência. Vale a pena e dá gosto ter uma rádio assim...

segunda-feira, janeiro 30

9 partes de silêncio

«"Quem quer estar com Deus, necessita de 10 coisas: 9 partes de silêncio e uma parte de solidão". O silêncio é imprescindível para não confundir a palavra de Deus com as palavras de si mesmo. Pois ao rezar, Cristo no deserto ou no alto da montanha ou outros lugares solitários, não dava uma palavra a Deus, mas calava até ouvir Deus falar. "Nove partes de silêncio" significa que voltamos a considerar as nossas palavras como frutos maduros, tal e como o faz Cristo quando nos diz que as nossas palavras são como cardos ou uvas. As uvas necessitam de muito tempo até que amadureçam e são comestíveis. »

Cardeal Meisner na catequese aos jovens nas JMJ 2005 Köln - «Buscar a verdade como sentido profundo da existência humana»

sábado, janeiro 28

É pelo sonho que vamos

Como escreveu o poeta Sebastião da Gama. É o sonho que comanda a vida, como escreveu outro poeta. Na verdade é o sonho que nos guia e é pelo sonho que, muitas vezes, conquistamos mais do que aquilo de que nos imaginávamos capazes.

Sonhar é bom. Faz bem à alma, alimenta o espírito e dá cor aos dias. Sonhar é um direito universal e, diria mesmo, um dever de todos nós. Faz falta sonhar. Uma pessoa incapaz de sonhar é como um jardim onde as flores não conseguem crescer.

Quem já não consegue sonhar com nada está mesmo sem saber, à beira do abismo. Desistiu, desacreditou, desarmou. Baixou os braços e ficou à mercê dos sonhos (diria pesadelos) dos outros. Entregou-se em vida. Rendeu-se sem honra nem glória. Perdeu o norte.
Sonhar com dias melhores, com outra vida, uma viagem, um amor ou o que quer que seja é uma maneira de gostar mais de nós próprios e dos outros. Sonhar é quase sinónimo de acreditar e quem acredita, consegue. Quem procura, encontra.

Quando falo em sonhar quero dizer sonhar acordado, no sentido em que desejamos muito uma coisa. Em que acreditamos que somos capazes de a conseguir.

Não se trata dos sonhos que não controlamos e nos povoam as noites. Esses pertencem ao domínio do inconsciente e é nesse registo que devem permanecer. Falo dos sonhos que nos alimentam, dão força e alento para seguir em frente. Sonhar que um dia havemos de ser alguém pode parecer um sonho banal ou infantil mas não é bem assim. Há muitas maneiras de «ser alguém» e no dia em que encontramos aquela que mais nos convém sentimo-nos realizados porque cumprimos um sonho.

Por cada sonho tornado realidade fazemos uma conquista interior. Crescemos quando o sonho nos faz alinhar com a nossa natureza mas aprendemos quando o sonho é desmedido e não foi talhado à medida das nossas necessidades reais. Acredito que Alguém (que para mim é Deus, mas para outros pode ser aquilo em que acreditam) gere um tempo que não é o nosso tempo e dá uma ordem às coisas que nem sempre conseguimos entender. É esse Alguém que se encarrega de nos ampliar os sonhos sempre que estão de acordo com aquilo que verdadeiramente necessitamos para o nosso crescimento interior mas, por outro lado, é capaz de nos dar sinais inequívocos de que estávamos a sonhar demasiado alto. Ou demasiado baixo.

Não há, por isso, que ter medo de sonhar. Aquilo que estiver cá para nós, há-de vir parar às nossas mãos enquanto aquilo que desejamos em excesso nos há-de escapar sempre, até percebermos que estamos a sonhar errado. Assim sendo e sem presunção mas com muita convicção, atrevo-me a fazer minhas as palavras de Sebastião da Gama. É pelo sonho que vamos!

In Xis ideias para pensar (Laurinda Alves)

sexta-feira, janeiro 27

“Para que o dom não humilhe o outro,
devo não apenas dar-lhe qualquer coisa minha,
mas dar-me a mim mesmo,
devo estar presente no dom como pessoa.”

Papa Bento XVI, in Deus Caritas est

Tornando o campo fértil

O mestre zen encarregou o discípulo de cuidar do campo de arroz. No primeiro ano, o discípulo vigiava para que nunca faltasse a água necessária; o arroz cresceu forte, e a colheita foi boa.
No segundo ano, teve a idéia de acrescentar um pouco de fertilizante; o arroz cresceu rápido, e a colheita foi maior.
No terceiro ano, ele colocou mais fertilizante. A colheita foi maior ainda, mas o arroz nasceu pequeno e sem brilho.

- Se continuar aumentando a quantidade de adubo, não terá nada de valor no ano que vem - disse o mestre.

“Você fortalece alguém, quando ajuda um pouco. Mas você enfraquece alguém, se ajuda muito.”


in paulocoelho.com

quinta-feira, janeiro 26

O macaco e o peixe

"Que estás tu a fazer?"
- perguntei eu certa vez a um macaco que tirava da água um peixe para o colocar num galho de uma árvore.

"Estou a salvar o bicho - respondeu - senão afoga-se!"



O bem de um é o mal de outro!

O sol dá visão às águias, mas cega as corujas.



Anthony de Mello

quarta-feira, janeiro 25

A palavra mágica

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, janeiro 23

O sentido das coisas

Por quê?
Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?

Carlos Drummond de Andrade


Nota minha: Desafio quem nos ler a comentar este poema. Afinal que sentido tem a vida? Falta sentido à vida? à morte? ao amor? Não tenham medo! Digam o que pensam! É um prazer ouvir-vos e ler-vos

sábado, janeiro 21

Voa bem mais alto

Não fiques na praia
Com o barco amarrado
E medo do mar
Tudo aqui é miragem
Mas na outra margem
Alguém a esperar

Como onda que morre
Sozinha na praia
Não fiques brincando
No mar confiante
Ensina o teu canto
De ave voando

Voa bem mais alto
Livre sem alforge
Sem prata nem ouro
Amando este mundo
Esta vida que é campo
E esconde um tesouro


Ninguém te ensinou
Mas no fundo tu sentes
Asas para voar
Nem que o céu se tolde
E as nuvens impeçam
Tu não vais parar

Há gente vivendo
Tranquila e contente
Como eu já vivi
És águia diferente
Céu azul cinzento
Foi feito p’ra ti.

Voa bem mais alto
Livre sem alforge
Sem prata nem ouro
Amando este mundo
Esta vida que é campo
E esconde um tesouro

sexta-feira, janeiro 20

Maria

Chamara-lhe Maria mas todos a conheciam por Mariazita. Mulher pequenina, marissíma, dona de uma fragilidade aparente, tem um sorriso amável. Faz parte do meu passado e da minha história. Habituei-me a vê-la na infância e a conviver com a sua simplicidade.
A Mariazita morreu esta semana. Nunca deve ter visto um computador mas ensinou-me muito com a sua simplicidade e amabilidade. Era mulher habituada às agruras e caprichos da terra.
Obrigada por tudo, Maria!

quinta-feira, janeiro 19

E tu, quem és?

Jesus manteve silêncio durante 30 anos antes de começar a pregar durante três anos seguidos. Neste sentido, são válidas as palavras de Friedrich Nietzsche quando diz que “Quem muito há-de anunciar uma vez, cala muito de si mesmo. E quem uma vez há-de ascender o raio, há-de ser por longo tempo nuvem”.

Cardeal Meisner, catequese aos jovens nas JMJ 2005 Köln - «Buscar a verdade como sentido profundo da existência humana»

quarta-feira, janeiro 18

Restolho

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração.

Mafalda Veiga

terça-feira, janeiro 17

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, janeiro 16

Como é o reflexo do teu?


"Assim como o rosto se reflecte na água,assim o coração do homem se reflecte noutro homem."

Livro dos Provérbios 27, 19

domingo, janeiro 15

pagar um serviço feito por amor?

Um santo homem muçulmano, chamado Joneded, foi em peregrinação a Meca vestido de mendigo. Viu lá um barbeiro que prestava serviços a um homem rico. Quando pediu ao barbeiro que o atendesse, o barbeiro largou logo o homem rico e pôs-se a barbear Joneded. E não quis dinheiro pelo serviço. Mais ainda, deu-lhe uma esmola. Joneded ficou tão comovido que decidiu dar ao barbeiro todo o produto das esmolas daquele dia.

Aconteceu que um peregrino muito rico pediu a Joneded alguns conselhos. E, no final do colóquio, o homem rico deu-lhe uma bolsa com ouro.
Joneded foi ter com o barbeiro nessa mesma tarde e ofereceu-lhe o ouro recebido.

O barbeiro gritou-lhe:
- Que raça de homem és tu? Não te envergonhas de oferecer uma recompensa em troca de um serviço feito por amor?

quinta-feira, janeiro 12

Perguntas e respostas

Dizem que a coragem não é a ausência de medo mas a capacidade de seguir apesar do medo.
Dou comigo a pensar que a coragem, na vida, deve ser a capacidade de nos colocarmos as perguntas apesar do medo das respostas. Alguém tem respostas sem perguntar?

Se não tens a coragem de perguntar achas que algum dia vais ter a resposta?

Agir e não reagir...

(...)acompanhando um amigo a uma banca de jornais, Harris notou que o vencedor se dirigia a eles com grosseria e hostilidade. Notou também que o amigo o tratava de maneira afável e cordial. Quando se afastaram, Harris perguntou:
"Ele é sempre assim, tão intratável?".
"Sim, infelizmente", respondeu o amigo. Harris insitiu:
"E você é sempre tão amável com ele?".
"Sim, é claro", respondeu o amigo. Então Harris fez a pergunta que o intrigava desde o início: "Porquê?"
O amigo de Harris pensou um pouco antes de responder, embora a resposta parecesse óbvia.
"Porque não quero que ele ou qualquer outra pessoa decida como devo comportar-me. Sou eu que decido como agir: Sou um actor, não um reactor".
Didney harris foi-se embora dizendo para si mesmo: "Esta é uma das mais importantes conquistas da vida: agir e não reagir".


Jonh Powell,sj, in Felicidade um trabalho interior

quarta-feira, janeiro 11

O Peixinho

"Por favor, por favor!"
disse um peixe do mar a outro peixe:
"tu que deves ter mais experiência, talvez possas ajudar-me...:
Onde posso encontrar a imensidão a que chamam Oceano?
Eu procuro em toda a parte e não encontro".

"Mas é precisamente no Oceano, que tu estás", disse o outro.

"Oh... Isto? Mas eu só vejo água!", disse o peixe mais jovem;
"eu procuro é o grande Oceano!".

E lá foi nadando, muito desapontado, à busca de informações, noutro lugar.


Anthony de Mello, in O Canto do Pássaro