quinta-feira, setembro 28

Velhinha

A Rua de São Bento, em Lisboa, está a ficar linda! Os prédios antigos estão a sofrer grandes obras e as fachadas estragadas e com a cor gasta pelo tempo estão a dar lugar a espaços cheios de luz e cor. Por enquanto, alguns prédios ainda estão esventrados e cheios de andaimes. E foi num desses prédios coberto de andaimes que a vi. Cabelo todo branco apanhado atrás da nuca com esmero. Uma bandelete dava-lhe um toque mais cuidado. os olhos pequeninos e as mãos enrugadas. Entre a vista e os dedos frágeis uma linha e uma agulha. A senhora velhinha tentava em vão enfiar a linha na agulha. Molhou a linha e voltou a tentar. Os dedos cada vez mais trémulos. Os olhos cada vez mais pequeninos. Volta a tentar. Os mesmos gestos: molha a linha, volta a tentar passar a linha pelo buraco da agulha. E volta a não conseguir...
Deixei de a ver quando o carro arrancou rumo ao Largo do Rato. E deixei para trás a velhinha a tentar enfiar a agulha. Fiquei a pensar nos velhinhos e velhinhas que habitam as casas da nossa cidade, os nosso vizinhos velhinhos que vivem sozinho a solidão que lhes enche a alma, a casa, os gestos...

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