terça-feira, dezembro 12

Morte lenta ...

Morre lentamente...
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor,
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televião o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco,
e os pontos sobre os "is"
em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho nos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa
quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho,
quem não se permite
pelo menos uma vez na vida
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da má sorte
ou da chuva que cai incessante
Morre lentamente
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo
que sabe.

Morre lentamente...

Pablo Neruda

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