domingo, janeiro 7

Sou mulher...

Sou mulher e, segundo alguns, parece que devia estar contente porque querem oferecer-me o aborto livre e gratuito; dizem que é para me dar mais um direito. Mas não estou contente, estou triste: entristece-me profundamente que ponham sequer esta hipótese. Não quero o direito de poder matar um filho em momento algum da sua vida. Mais, sei que mesmo que a lei um dia o declare, preto no branco, esse direito continuará sempre a ser uma mentira. Ninguém tem o direito de destruir uma vida, e ninguém pode dar esse direito.

Fomos dos primeiros a abolir a pena de morte. Que pena me faz ver este meu Portugal a regredir a esses tempos, em que se considerava que um ser humano tinha poder de vida ou de morte sobre outro! Dizem também que eu devia estar contente porque assim me querem proteger. E eu pergunto: proteger de quê? Proteger de ser mãe?! Será a maternidade uma doença assim tão terrível?


(...)

Tenho uma grande amiga que abortou quando era nova, tinha 20 anos e sentia-se incapaz de ser mãe. Pensou que assim ia esquecer rapidamente aquela gravidez tão fora de horas. "Correu tudo bem", o bebé foi desfeito por mãos muito profissionais, não teve problemas de saúde, mas as feridas de que ninguém lhe falou nunca mais sararam. Aos 40 anos era alcoólica, estava sozinha, nunca mais teve outro filho... Ela é que precisava de ter sido protegida. Fico feliz por saber que agora já há muitas associações que ajudam mulheres nestas circunstâncias. Que protegem realmente, ajudando a enfrentar a realidade dum filho que já existe e que mesmo não programado se pode aprender a amar.

Fico triste, terrivelmente triste, quando dizem que me querem dar o direito ao aborto livre e gratuito, e mais ainda quando se atrevem a dizer que é para me proteger.


Margarida Campos, Vidas com Vida

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